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Bom Jesus

Sindicato dos Produtores de Bom Jesus também se manifestam e repudia declarações de deputado do PT

O Piauí está vendendo o almoço pra comprar a janta?

O Deputado Estadual pelo PT Ziza Carvalho divulgou em suas redes sociais um vídeo em que ele aponta a inexistência de piauienses na região de produção de grãos dos cerrados e o elevado poder aquisitivo dos produtores rurais “de fora” que la existem como justificativa para privar-lhes de infraestrutura, devendo a atenção pública voltar-se para o semiárido. Apontou que a gauchada, que segundo ele só alimenta a China, é tão rica que chega a possuir aeroportos privados melhores do que os públicos e, sendo assim, tem condição de se virar com suas próprias estradas.

A análise econômico-social feita pelo Deputado suscitou polêmicas e recebeu notas de repudio por parte da seccional piauiense da Associação Brasileira dos Produtores de Soja e da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado. Como presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da Microrregião de Bom Jesus/PI, fui instado a também publicar a repulsa da nossa instituição àquela fala que foi vista não apenas como equivocada e injusta, mas também xenofóbica. Me posicionei contrário à divulgação de uma nota e, mantendo minha posição, optei por redigir este artigo já que o tema merece uma análise, não apenas o repúdio, que é óbvio. Explico.

Ziza Carvalho não é das figuras mais badaladas da política piauiense. A propósito, ele sequer é dos piauienses puros (como via de regra os xenófobos exigem), já que seu fenótipo sofreu forte influência goiana. Poucos devem saber – ou ao menos lembrar – que um dia em algum governo ele foi secretário de meio ambiente do Estado. Também não tem nos produtores do cerrado sua base eleitoral, nem mesmo representa de forma maciça os produtores do semiárido, mas apenas uma fração pequena deste na região de Simplício Mendes/PI que sequer foi suficiente para elege-lo, mas apenas garantir-lhe a suplência da Deputada eleita Janaina Marques, do PTB.
Por outro lado, vislumbrando o currículo do Deputado (procurador do Estado do Goiás, professor de Direito etc), não consigo acreditar ser ele um sujeito simplório e alienado, como tenta parecer ao expor em seu vídeo opiniões sem qualquer forma ou figura de racionalidade, seja aqui seja no Goiás.

Não! E por isso me recusei a divulgar contra ele uma nota de repúdio. É que, tratando-se de alguém com conteúdo intelectivo, mostrou-se óbvio para mim que seu objetivo não era xenofóbico, tampouco de reivindicação de algo em favor do semiárido. Há anos não existe mais no Piauí essa dicotomia entre sojicultores gaúchos e pecuaristas (bovino, caprino, ovino, aves etc.) piauienses. Talvez do Goiás o jurista Ziza Carvalho não tivesse ouvido falar que há aproximadamente vinte anos tudo se miscigenou no Piaui: o nascido na região sul do Brasil virou piauiense por opção; seus filhos e netos nasceram em terras piauienses; os colégios de Uruçui e Sebastiao Leal acostumaram-se a ver na chamada de presença os sobrenomes Sanders, Werner, Dalto, Barille misturados aos Silva, Santos e Cruz. O pujante comércio de Bom Jesus, Gilbués, Monte Alegre do Piauí, Palmeira do Piaui e Santa Filomena há anos não vê mais diferença entre vender para um Martins, um Leal, um Gois ou um Fritzen, Bordignon, Manganelli ou Pieta. Tudo tornou-se natural e comum, como um pequi, que brota tanto no Goiás como no cerrado e no semiárido do Piaui. O milho produzido pelo piauiense do cerrado – aquele mesmo do aeroporto bem estruturado – alimenta a galinha caipira produzida pelo piauiense do semiárido, que é vendida no comércio para aquele mesmo piauiense do agronegócio que dela se alimenta no almoço para logo em seguida fazer uma cuia de chimarrão: ele e seus quinhentos funcionários diretos e muitos outros piauienses que viram suas vidas serem transformadas positivamente por essa mistura. Talvez no Goiás ainda não saibam que desde 2015 o Piauí teve seu cadastro na Conab modificado para exportador de milho: produz todo o milho que precisa para seu consumo interno e exporta seu excedente, sendo mais ainda autossuficiente em soja. Há grãos suficientes no Estado para fomentar a avicultura e caprinocultura de Simplício Mendes, assim como, graças aos seus produtores rurais, o Piauí tem sido abençoado com fartas divisas que permitiriam ao seu governo, com a receita de um ano, asfaltar as intransitáveis PIs 392 e 397 (principais obras de logística pleiteadas pelo agronegócio), bem como amparar o semiárido em toda sua amplitude, não apenas no reduto do suplente de Deputado Estadual Ziza Carvalho.

Não! Não há sinceridade nas palavras ofensivas dele. Ainda que tendo migrado há relativamente poucos anos do Goiás de volta para o Piauí, ele sabe que aqui o Estado não está vendendo o almoço para comprar a janta e o que pode estar faltando é um pouco de político “ponta firme” e de política pública que respeite os produtores do semiárido com a mesma intensidade com que são respeitados pelos produtores do agronegócio.

Não é necessário privar os produtores do semiárido de estradas para que se asfalte o cerrado nem vice-versa e o deputado, como bom político, sabe que no próximo ano – ano de eleição – teremos asfalto sendo feito pelo DER tanto no cerrado quanto no semiárido e que o problema não é dinheiro ou local de nascimento, mas pura numerologia: como já disse em outras oportunidades, 2022 é um número auspicioso, favorável para se espalhar asfalto pelo estado, ao contrário de 2021!

Não! Nunca vi goiano besta. Ziza Carvalho não queria ofender o “gaúcho”, boicotar estrada do agronegócio nem mesmo levar infraestrutura ao semiárido. O que ele queria já conseguiu quando as notas de repúdio foram publicadas: ter seu nome exportado de Simplício Mendes pelas mãos do agronegócio e com isso alcançar a simpatia daqueles que, vivendo no mundo da lua, acham que fome se mata com amor.

Moysés Barjud

Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da Microrregião de Bom Jesus/PI

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