Região Sul do Piauí está abandonada pelo poder público estadual, população morre a míngua sem Leitos de UTIs. Região da Chapada das Mangabeiras, tem uma área semelhante a Portugal, são 24 municípios e quase 200 mil habitantes. Um médico da região que trabalha e mora em Teresina faz desabafo nas redes sociais. Veja a seguir o relato do médico, Dr. Edinaldo Miranda.
COVID-19, POLÍTICA E DESCASO"Há alguns dias escrevi aqui umas mal traçadas linhas sobre a situação do combate ao sars-cov-2 na cidade de Bom Jesus, Piauí. Naquele tempo, a cidade tinha mais de 300 casos confirmados de covid-19 e 1 óbito. Letalidade abaixo de 0,5%. Resultado excelente.
Pois bem, aqueles foram dias de intensa atividade no mensager, whatsapp e demais redes sociais, além de telefonemas, me criticando, dizendo que embora fosse verdade eu não deveria ter escrito aquilo porque a secretaria municipal de saúde estava fazendo um péssimo trabalho no combate ao covid 19.
Não discuti, fiz apenas uma única pergunta e até agora ninguém me respondeu: pedi que me explicassem os resultados oficiais, divulgados no site do governo estadual, já que o combate ao vírus era ruim. Continuo sem resposta até hoje.
O texto era técnico, analisando os resultados, sem me ater a quais medidas estavam sendo tomadas nem de quem eram os méritos.
O ciúme era político pois a prefeitura estava disponibilizando o atendimento qualificado na rede municipal e todos os medicamentos para a prevenção e tratamento precoce, enquanto o hospital recebia críticas pela estrutura, falta de medicamentos e equipamentos e falta de protocolos padronizados para o tratamento da covid-19.
Deixei claro que não entraria nessa briga, pois sou apenas um médico preocupado com a região onde nasci e tenho centenas de familiares, amigos e pacientes. Mas que estas denúncias e reclamações da população precisavam ser investigadas.
Já tinha nos colocado à disposição anteriormente e nenhum contato havia sido feito. Coloquei novamente um grupo de médicos de Teresina à disposição do hospital para troca de experiências e até agora, nada.
Enfatizei que os casos graves começariam a aparecer e precisava de um suporte hospitalar minimamente preparado para cuidar dos pacientes. Hoje a cidade tem 497 casos confirmados.
Infelizmente, daquele dia até hoje, 6 pacientes precisaram de intubação e ventilação mecânica, todos foram transferidos por falta de UTI na cidade e todos morreram. 100% de mortes nos doentes muito graves. Por isso defendemos a prevenção, a profilaxia e o tratamento precoce! Com a palavra os defensores da tese que se tiverem covid-19 deverão ficar em casa tratando como uma gripe comum e somente quando os pulmões tiverem comprometidos deverão usar algum medicamento e procurar um hospital. Vale lembrar que até onde temos conhecimento todos que defendem essa teoria procuraram o hospital no início dos sintomas e usaram os medicamentos que são contra no início da doença. E todos estão bem!
Daquele tempo para cá, no atendimento pré-hospitalar, os pacientes continuam sendo bem atendidos e recebendo os medicamentos e centros de atendimento intermediário foram instalados para permitir um melhor monitoramento, realização de exames e administração de medicação endovenosa e subcutânea, como por exemplo, metilprednisolona e enoxaparina (corticóides e anticoagulantes)
No atendimento hospitalar, não tenho informações sobre o que mudou, mas tenho mais um relato feito por amigos de um paciente, sobre mais um caso ocorrido ontem já tarde da noite, quase meia noite. Fato grave, cuja veracidade precisa ser averiguada.
Recebi uma ligação solicitando orientação de como proceder, pois, estavam com um doente grave, em ventilação mecânica, sem médico no setor para doentes com covid do hospital e com dificuldade para transferi-lo para uma cidade que tivesse médicos e leito de UTI. Disseram que o paciente havia sido intubado por volta de meio dia, por um médico que não estava de plantão, mas tinha ido ao hospital a pedido da família. Até meio dia os pacientes da chamada “ala covid” não tinham sido examinados nem prescritos. Esta ala continuou sem médico durante todo o plantão. Paciente intubado, em uma ala sem médico, sem ter para onde ser transferido. Quando conseguiram o leito em outra cidade, não tinha mais condições de transferência.
Volto a dizer, são relatos que precisam ser investigados!
Não vou escrever nada sobre o que penso, mas deixarei algumas perguntas para reflexão:
- Porque em 4 meses de isolamento social para ganhar tempo e adequar a rede hospitalar e evitar o colapso do sistema de saúde, nenhum leito de UTI foi construído naquele hospital, situado em uma importante cidade do sul do estado?
- Pelos dados oficiais divulgados ontem, 151 leitos de UTI’S estavam disponíveis, então qual a dificuldade para transferir o paciente?
- Divulgaram recentemente que empresários da região doaram equipamentos para instalar uma UTI naquele hospital, o que é muito bom e digno de todas as honras, então por que até o momento isso não aconteceu?
Senhores políticos e gestores, tenham um bom dia. Se isso for possível, e se a consciência permitir, diante de situações como essa".
Eu não dormi bem. Estou de péssimo humor. Com a pá virada e “m... e...” torcidos!
Abraços fraternos a todos. e que deus nos proteja!
Dr. Edinaldo Miranda